RETROMANIA. Tudo de bom, só que não.

retro

Faltam apenas duas poses para o filme acabar e imagino se as fotos que tirei ontem ficaram boas. Na próxima vez, compro um filme de 36, em vez de 24 poses. Dava para ter registrado melhor a noite de ontem. Fomos todos dançar as músicas de James Brown e Aretha Franklin naquela festa que toca os melhores vinis de soul e funk. Minha namorada ficou com as pernas cansadas. Na noite anterior, havíamos dançado rock a noite toda, ouvindo Elvis e Bill Halley. Ela foi com sua saia rodada e a blusa de bolinhas, a roupa que ela tanto gosta. Acho melhor não arriscar ficar mais cansado hoje e ver esse show só com músicas do Roberto Carlos na rua Augusta. Mas, antes, vou comprar alguns vinis e relaxar na frente da minha vitrola. Só falta pegar uma Tubaína na geladeira redonda e vermelha aqui de casa. Ouço uma campainha. É meu telefone. Ou melhor, meu iPhone. Peraí: iPhone?

Sim, essa cena se passa em 2011. Cada detalhe do parágrafo acima se encontra presente em nosso tempo e está mais atual que nunca, apesar de parecer coisa de 50, 60 anos atrás. É que o mundo hoje vive uma febre pelas coisas do passado. O termo é “retromania“, cunhado pelo jornalista americano Simon Reynolds e título de seu mais recente livro, publicado em 2011. Para ele, “os primeiros dez anos do século 21 acabaram sendo a década do ‘re'”. “Re” de refazer, recuperar, retorno. Na música, que é o assunto específico de Retromania: Pop’s Culture Addiction to its Own Past (“O vício da cultura pop em seu próprio passado”, em uma tradução livre), ele cita um surto de volta de bandas antes extintas (por exemplo, Pixies, My Bloody Valentine, Rage Against the Machine, Faith No More) como indício de que estamos voltando no tempo.

Ou quase isso

Reynolds diz que “nunca houve uma sociedade na história humana tão obcecada com os artefatos culturais de seu passado imediato” como a nossa. Estamos, para ele, voltando nossas atenções para o passado de uma maneira que nunca havíamos feito. Um dos principais aliados nisso é a internet. Com milhares de discos, vídeos e textos disponíveis, temos um arquivo que antes ficava restrito a bibliotecas. E ainda temos a capacidade de armazenar nosso passado imediato como nunca antes. Portanto, elementos vindos de um passado razoavelmente distante estão, aos poucos, voltando à moda e sendo consumidos como novidades. Será que isso é bom? O que diz sobre nós?

Geladeira e fotografia

A câmera Lomo não faz imagens digitais e não publica seu retrato no Facebook. Ela é uma câmera analógica, que tira fotos em filmes de 35 milímetros e em outros formatos. Criadas na União Soviética em 1914, as máquinas Lomo viraram mania no século 21: são 20 lojas no mundo. No Brasil, a segunda loja acaba de abrir, em São Paulo. Segundo Bruno Siqueira, gerente regional da Lomography no Sul e Sudeste, a graça é “continuar com a surpresa da fotografia, coisa que a era digital inibiu”. A nostalgia da foto analógica está no que ele chama de “momento mágico”. Ou seja, esperar a revelação do filme. O designer mineiro André Scatelli concorda. “É uma experimentação no escuro. É um trabalho muito no acaso”, diz ele, dono de quatro modelos Lomo.

Tradicional no mercado brasileiro, a marca Brastemp passou também a investir no que chama de “linha retrô”. Baseada no sucesso de um minirrefrigerador inspirado nas geladeiras de 1957, a marca lançou um fogão e uma geladeira com linhas redondas e cores como o vermelho “brasa mora”. Mario Fioretti, gerente geral de Design e Inovação da Whirlpool Latin America, empresa dona da Brastemp, afirma que os produtos “vintage” foram criados com base na “força da tendência retrô”. Apesar de não informar os números de vendas, Fioretti estima a participação dos produtos “inovadores”, categoria dentro da qual está a linha retrô, em 25% do faturamento da marca.

A volta das bolachas

Os números não são favoráveis apenas a quem vende geladeiras. Pesquisa feita pela empresa Nielsen Soundscape mostrou que a venda de discos de vinil cresceu 14% no mundo em 2010. Feito impressionante para um formato lançado em 1958 e declarado morto várias vezes ao longo das últimas duas décadas. Talvez por isso a fábrica de LPs Polysom, em Belford Roxo (RJ), tenha sido reativada há um ano e meio. Comprada por João Ramos, dono da gravadora Deckdisc, ela produz as “bolachas” nacionais que têm voltado ao mercado. Reedições de Chico Science e Nação Zumbi e edições de discos novos, como o “Nó na orelha” do rapper Criolo, mostram que o formato está longe de desaparecer, apesar da profusão de tocadores de mp3.

Filho de João, o produtor e diretor artístico da Vigilante Records, Rafael Ramos, vê muitas vantagens em ter e colecionar vinis. “Não só a qualidade, que é comprovadamente melhor, mas também a experiência com o disco. É o formato que mais valoriza a música como arte. Da capa até o fato de você participar ativamente da execução do disco, tendo que trocar de lado, prestar atenção.” E em seu selo Ramos segue a lição: o novo disco do produtor de música eletrônica Boss In Drama tem uma obrigatória versão em vinil.

Crise?

Trazer as referências antigas para a atualidade acaba gerando dúvidas sobre uma possível falta de criatividade. Portanto, qual será a conclusão? É bom ou ruim voltarmos ao passado? Talvez nem um nem outro. Bom é poder ter acesso a tudo que poderia ter ficado só na memória de quem teve a sorte de conhecê-los. Se nossa sociedade é a mais obcecada com os artefatos culturais de seu passado, também nunca houve antes uma que “pudesse acessar o passado imediato tão facilmente”.

E com a ascensão da internet, encontrar todas essas referências se tornou ainda mais fácil. Filmes, discos, fotografias e produtos estão ao alcance de qualquer um que queira encontrá-los. Na web o passado e o presente convivem sem distinção. Simon Reynolds, autor do livro “Retromania” diz que hoje os jovens não se movem para a frente, buscando novidades, nem para trás, buscando aprender com os mestres. O movimento é “de lado”, pulando de referência em referência sem parar. Aproveite! FONTE: Vida Simples.

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Filed under Comunicação, Referências

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